sábado, 19 de março de 2011

Lagrimas e Saudades... Parte II

Acordou assustado e banhado em seu próprio suor, o barulho que vinha do cômodo debaixo e um pesadelo que o vinha assombrando há muito tempo, o despertou, concluiu prontamente, mais uma noite de insônia, outra vez aquela situação desesperadora...

Desceu as escadas em direção a cozinha buscando a origem do barulho,talvez uma janela aberta por onde algo possa ter passado, talvez seu bicho de estimação procurando ração, talvez o vento teria derrubado alguma coisa, mas não, a cena em que se deparou não foi nada disso...
Em cima da mesa havia fotos, fotos de sua infância, recordações que ele buscava esquecer, mas não era apenas isso, talvez estivesse ainda embriagado pelo sono do qual foi desperto, mas ele podia ver que ali na mesa, tinha algo a mais...

Uma caneca de café, mas não dessas que ele era habituado a usar, aquela tinha algo diferente, além da caneca um aroma familiar lhe percorreu as narinas e sentiu arrepios, como se fosse uma droga, e o cheiro lhe era familiar, ele já havia sentido antes e jamais iria esquecer, o perfume adocicado que se misturava com os cremes corporais e xampu que ela usava para se perfumar pra ele, era cada vez mais certo a presença dela ali...

O formato da sombra que a lua projetava era inconfundível, o reflexo que adentrava a cozinha através das vidraças era uma prova irrefutável, era ela..tinha que ser.

Observou a mesa, a cadeira e viu ali sentada, com todos os seus traços e detalhes, todas as formas e curvas, o cabelo e o sorriso inconfundível, aquele olhar que lhe provocava arrepios e tirava lhe o fôlego, seria uma imaginação? Um delírio? Uma alucinação? Será que o vinho já lhe começava a surtir algum efeito? Não podia ser, não tinha tomado tanto assim...

Tudo que pode concluir é que ele não estava só naquela cozinha, ele podia ver ela sentada ali, da mesma maneira como ela fazia todas as manhas, as pernas cruzadas e as mãos a abraçar a caneca de café, encarando a janela em um momento de reflexão e concentração,mas o seu olhar parecia distante, frio...

Decidiu aproximar-se para ver se era realmente real ou apenas uma miragem e mais uma peca que a sua mente vinha pregando há vários dias, cada passo que ele dava em direção a cadeira sentia seu coração bater mais forte, um suor frio começou a percorrer-lhe o corpo, mas respirou fundo e foi se aproximando, o cheiro era o mesmo, isso ele pode perceber de imediato, porém ao chegar cada vez mais perto ela ia se afastando, como se fosse um pesadelo mas quem garante que não era? Cada passo que ele dava em direção a cadeira mais longe ela ficava...

O coração voltou a bater forte e ele sentiu suas veias pulsarem por todo o seu corpo, começou a entrar em pânico, queria chegar perto, queria tocar, abraçar, sentir o cheiro doce do seu perfume mais uma vez, queria poder passar a mão por entre seus cabelos, deslizar em seu lindo e suave rosto como sempre fazia. Queria mas não podia, tinha alguma coisa que o mantinha cada vez mais longe dela e da maldita cadeira, lembrou da vez em que estava com seus pais em uma tarde de verão, lá estavam todos eles reunidos, de repente David, seu irmão mais novo, decidiu ir brincar próximo a um riacho, escorreu em algumas pedras e acabou por cair no meio da correnteza, por mais que ele tentasse se aproximar de seu irmão, mais longe ele ficava, e tudo que ele podia ver era o desespero nos olhos do menino que seguia sendo arrastado pela forte correnteza, os gritos desesperados de todos em volta de nada adiantava, e tudo que ele fez foi assistir a aquela trágica cena, seu único irmão sendo arrastado por um riacho e o que era pra ser uma tarde alegre em família tornou-se uma tarde triste...foi essa a cena que passou por sua cabeça.

Quando voltou a si, se deu conta de que estava novamente em sua cozinha, o vento balançava suavemente as cortinas, a única luz ali era a do relógio do microondas e a de um poste que adentrava pelas frestas entreabertas da janela, a mesa estava vazia sem nenhuma foto ou caneca, nada de anormal parece ter acontecido por ali, ‘’outra alucinação?’’ pensou ele..e antes de se dirigir para o quarto na esperança de voltar a dormir decidiu pegar uma garrafa de whisky...

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Anderson Toledo Mendes, Baln. Camboriu - SC

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